
a Wim Wenders ,
Otto Isenbügel e Sônia França
I
Os anjos fremem as cordas de uma sinfonia
a pairar além de toda dor humana.
O eterno afaga a música
transbordando-a no silêncio absoluto.
Humanos, os sentidos não podem
ferir os muros desse segredo.
O invisível nos amordaça, nos rasga
em toda rua, em toda esquina,
exilando-nos numa cegueira de pedra e aço.
Porém, os anjos adormecem em todo nome,
em todo ombro ferido pelo sal e pelo tempo.
Nascemos dessa partitura de asas,
corpo e acorde, sangue e vinho,
transmutados no destino da melodia.
II
Quando a criança era criança,
o silêncio espargia o sol
na madurez dos frutos,
na agonia das mães
órfãs de filhos.
Quando a criança era criança,
um anjo abria as asas em toda lágrima,
no cansaço dos que morriam
sem nome, sem crepúsculo.
Quando a criança era criança,
a erva daninha não povoava os túmulos
e em toda morte, em toda ferida,
uma bailarina dançava,
desafiando os desastres,
cortando os desacertos,
com a delicadeza de acordes
e gestos a pairar além do grito.
Quando a criança era criança,
saltimbancos corriam pelos hospitais,
pierrôs dançavam nos manicômios,
colombinas pousavam rosas nos cárceres.
Era proibido morrer
quando a criança era criança.
Quando a criança era criança,
os anjos podiam se jogar
do último andar das paixões,
do derradeiro degrau do êxtase.
No chão a vida abria os braços,
afetando-lhes a primícia dos sumos,
a tepidez dos afagos, o perfume da amora.
Quando a criança era criança,
ser humano era raro e urgente
como a chegada da eternidade.
III
Perscrutam o roteiro dos desastres.
Auscultam o pulsar das fatalidades.
Os anjos perambulam pelas ruas,
colhendo nas esquinas
uma paixão viva em espinhos.
Ninguém percebe a presença do eterno!
Os homens vagam pelos abismos,
na obscuridade dos trens,
na monotonia dos carros,
na ferida dos acasos.
Ninguém sente o invisível a nos amar
com sua delicadeza de sopros e vôos.
Os anjos percorrem o destino
de um poema sem palavras,
de uma música sem acordes.
Eles sublinham no orvalho de suas asas
o êxtase do vinho, a fúria da sede!
IV
Era preciso termos sede para o amor.
Era necessário termos ossos para o encanto
do orvalho, do cheiro da romã aberta.
Se não fôssemos efêmeros,
não sentiríamos o gosto do vinho,
nãos saberíamos o sabor abençoado do pão.
Se não fôssemos frágeis,
não poderíamos enlaçar o corpo ardente,
não conseguiríamos afagar o pulsar da pele,
essa tessitura de desejo e lava.
Era necessário termos fome para o beijo.
Era preciso sermos aragem para a rosa.
Jamais saberíamos o paladar do mel
se não estivéssemos enredados no tempo.
Nunca desfrutaríamos o esplendor de maio,
se a morte não pudesse nos visitar
com seus passos de súbita sombra.
V
Se os anjos o eterno me ofertassem,
para que a primavera do vinho
jamais abençoasse a secura da minha carne,
gratificado a morte abraçaria,
para fazer-me febre em todo afago,
poeira em todo silêncio.
VIA bailarina dança acima dos desastres.
Pode o nada rasgar-lhe
as asas de papel?
Pode o silêncio despedaçar-lhe
a eternidade de areia?
A bailarina arpeja seus gestos
acima de toda queda.
Pode a desventura
afagar-lhe os seios?
Pode a morte
beijar-lhe o ventre?
É para ela o amor dos anjos!
Por isso da eternidade
irrompe a pedra,
nasce o instante,
surge a carne.
Uma asa lateja no cerne de todo desejo,
na glória de todo êxtase.

VII
a Nastassja Kinski
A fatalidade de seus olhos
verte mel no coração das feras.
A delicadeza de seu rosto
apascenta a mágoa dos assassinos.
Um anjo de alvíssaras e acalantos
abre as asas sobre a cidade,
acolhe nos braços a morte,
o desespero humano.
No seu colo repousa o Cristo morto.
De onde vem a serenidade
desse olhar a pulsar o eterno?
De qual distante Deus nasceram
esses olhos de compaixão e ternura?
Eis a beleza de rosto mais sereno!
Um anjo afaga os desastres,
pousa pétalas no grito de toda chaga.













