Sexta-feira, Novembro 20, 2009

ASAS DO DESEJO


a Wim Wenders ,
Otto Isenbügel e Sônia França

I

Os anjos fremem as cordas de uma sinfonia
a pairar além de toda dor humana.
O eterno afaga a música
transbordando-a no silêncio absoluto.
Humanos, os sentidos não podem
ferir os muros desse segredo.
O invisível nos amordaça, nos rasga
em toda rua, em toda esquina,
exilando-nos numa cegueira de pedra e aço.
Porém, os anjos adormecem em todo nome,
em todo ombro ferido pelo sal e pelo tempo.
Nascemos dessa partitura de asas,
corpo e acorde, sangue e vinho,
transmutados no destino da melodia.


II

Quando a criança era criança,
o silêncio espargia o sol
na madurez dos frutos,
na agonia das mães
órfãs de filhos.

Quando a criança era criança,
um anjo abria as asas em toda lágrima,
no cansaço dos que morriam
sem nome, sem crepúsculo.

Quando a criança era criança,
a erva daninha não povoava os túmulos
e em toda morte, em toda ferida,
uma bailarina dançava,
desafiando os desastres,
cortando os desacertos,
com a delicadeza de acordes
e gestos a pairar além do grito.

Quando a criança era criança,
saltimbancos corriam pelos hospitais,
pierrôs dançavam nos manicômios,
colombinas pousavam rosas nos cárceres.
Era proibido morrer
quando a criança era criança.

Quando a criança era criança,
os anjos podiam se jogar
do último andar das paixões,
do derradeiro degrau do êxtase.
No chão a vida abria os braços,
afetando-lhes a primícia dos sumos,
a tepidez dos afagos, o perfume da amora.

Quando a criança era criança,
ser humano era raro e urgente
como a chegada da eternidade.


III

Perscrutam o roteiro dos desastres.
Auscultam o pulsar das fatalidades.
Os anjos perambulam pelas ruas,
colhendo nas esquinas
uma paixão viva em espinhos.
Ninguém percebe a presença do eterno!
Os homens vagam pelos abismos,
na obscuridade dos trens,
na monotonia dos carros,
na ferida dos acasos.
Ninguém sente o invisível a nos amar
com sua delicadeza de sopros e vôos.
Os anjos percorrem o destino
de um poema sem palavras,
de uma música sem acordes.
Eles sublinham no orvalho de suas asas
o êxtase do vinho, a fúria da sede!


IV
Era preciso termos sede para o amor.
Era necessário termos ossos para o encanto
do orvalho, do cheiro da romã aberta.
Se não fôssemos efêmeros,
não sentiríamos o gosto do vinho,
nãos saberíamos o sabor abençoado do pão.
Se não fôssemos frágeis,
não poderíamos enlaçar o corpo ardente,
não conseguiríamos afagar o pulsar da pele,
essa tessitura de desejo e lava.
Era necessário termos fome para o beijo.
Era preciso sermos aragem para a rosa.
Jamais saberíamos o paladar do mel
se não estivéssemos enredados no tempo.
Nunca desfrutaríamos o esplendor de maio,
se a morte não pudesse nos visitar
com seus passos de súbita sombra.


V

Se os anjos o eterno me ofertassem,
para que a primavera do vinho
jamais abençoasse a secura da minha carne,
gratificado a morte abraçaria,
para fazer-me febre em todo afago,
poeira em todo silêncio.


VI

A bailarina dança acima dos desastres.
Pode o nada rasgar-lhe
as asas de papel?
Pode o silêncio despedaçar-lhe
a eternidade de areia?
A bailarina arpeja seus gestos
acima de toda queda.
Pode a desventura
afagar-lhe os seios?
Pode a morte
beijar-lhe o ventre?
É para ela o amor dos anjos!
Por isso da eternidade
irrompe a pedra,
nasce o instante,
surge a carne.
Uma asa lateja no cerne de todo desejo,
na glória de todo êxtase.





VII

a Nastassja Kinski

A fatalidade de seus olhos
verte mel no coração das feras.
A delicadeza de seu rosto
apascenta a mágoa dos assassinos.
Um anjo de alvíssaras e acalantos
abre as asas sobre a cidade,
acolhe nos braços a morte,
o desespero humano.
No seu colo repousa o Cristo morto.
De onde vem a serenidade
desse olhar a pulsar o eterno?
De qual distante Deus nasceram
esses olhos de compaixão e ternura?
Eis a beleza de rosto mais sereno!
Um anjo afaga os desastres,
pousa pétalas no grito de toda chaga.



Terça-feira, Novembro 17, 2009

VINÍCIUS


David W. Haskins


Não pude voltar as costas ao silêncio.
Não quis esquecer essa voz
tão amável, tão áspera:
hálito de álcool e esperança
aquecido pela inocência.
Imolei-me ao ouvir o seu chamado,
a sua súplica ferida,
oração de um adolescente que,
de um dia para o outro,
envelheceu queimando-se
em todo instante.
Abriu-me a porta e,
feito miragem,
noite submersa no íntimo
de outra noite, sua nudez
esplendeu pelo ar,
fresca, glabra,
numa alvura de cristal puríssimo.
No seu quarto fétido,
a sujeira era o ranço de uma saudade,
a remela de uma esperança.
Nunca pude abandonar o luar.
Nunca quis aplacar esse ácido
a corroer minhas vísceras,
meus devaneios.
Serenamente ele despiu-me,
pousou a boca no meu colo
e nos sorvemos na claridade
de um relâmpago a nos iluminar
num tempo além da morte.
Jamais pude ignorar o silêncio.
Jamais quis esquecer essa voz
tão áspera, tão amável...

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Dentro da noite escura


a Donizete Galvão

¡O noche amable más que la alborada!
San Juan de La Cruz

I

O silêncio, feito correnteza
de instantes amordaçados,
corta meus pulsos,
acorrenta meus sonhos,
atirando-me na procela
de pensamentos desfeitos.

Apesar do branco da página,
da lâmina e do nada,
o poema se insurge
como iluminura, tênue flama
a incendiar o acaso.


II

Morre o poema?
Jamais.
Mesmo sem nascer
ele nos inscreve
no absoluto do Verbo,
na plenitude do real.


III

Os acidentes, o grito,
a pedra, a faca,
erguem-se contra a mão
pronta para colher
o sal das palavras.

Os desastres todos da existência
revoltaram-se contra o poema.
Todavia esse sopro ofusca o sol,
arrebenta-se contra as tempestades
e inscreve no nada o leve
adejar dos milagres.


IV

O que pode a morte contra o poema?
Qual a força do desespero ante o encantamento
vindo do clamor fecundo da vida?
O que pode o nada contra a fúria da palavra?
Qual solidão é capaz de destruir esse sopro
feito do ardor de toda fragilidade?

O poema abre o peito contra a tarde,
contra o delírio dos desastres
e se joga do mais alto precipício
até despencar desnudo
no êxtase pleno da vida.


V

Os algozes preparam a forca!
Os chacais conclamam o grito!
Os traidores preparam a armadilha!
Mas o poema, de rosto límpido,
tingido pela diáfana luz da manhã,
atravessa, serenamente, os pórticos,
os corredores, o Gólgota,
com a serenidade daqueles
que amaram a Vida
acima de todas as coisas.
No cume do martírio,
todos escarram na face
do poema.
Todos riem da mansidão
desse cordeiro sereno.
Ao lado de cada chaga
a ferir as palavras,
há uma mãe em pranto,
em oração.
Ao lado do sangue desse cálice,
há sempre um irmão mais jovem,
a exortar a força do Verbo.
O poema caminha despido
de ódio, desfeito em amor.
No final de todo silêncio
uma ressurreição conclama
a iluminação das palavras.


VI

Senhor! Senhor!
Que noite escura é essa,
a mais densa, a da alma?
Senhor! Senhor!
Minha boca cortou-se na sede!
Meus pulsos rasgaram-se no deserto!
Senhor! Senhor!
Que treva noturna é essa,
que me entreva em toda lança,
que me amputa em toda cama?
Senhor! Senhor!
Meus sonhos rasgaram-se em brancas páginas!
Minhas palavras quebraram-se em turvas sombras!
Senhor! Senhor!
Que noite escura é essa,
a mais árdua, a da alma?
Estou abandonado e ferido!
Perdi pai e mãe, filhos e irmãos!
Senhor! Senhor!
Que desespero é esse,
feito dessa humanidade
tão ínfima, tão cortante?
Senhor! Senhor!
Que noite escura é essa,
a mais férrea, a do silêncio?


VII

Da noite nasceu o fogo,
uma música desceu dos céus.
Em toda casa fez-se nascimento.
Em toda boca insurgiu-se o canto.
Ele veio do mais alto sol,
da pátria mais distante.
Trazia os pássaros ao mundo,
a água aos mares.
Em todo recanto nasceram rosas,
bosques de olorosa seiva.
Os desertos tornaram-se fecundos rios.
As geleiras abriram-se em delicados jardins.
Ele vinha festejando as magias,
acalentando nuvens,
celebrando vinhas.
Os cabelos esbatidos pelo mistério.
A barba crespa, dourada em dulcíssimo mel.
Os olhos fecundos de maresias
e veleiros de ardentes crepúsculos.
Nunca a beleza foi tão humana.
Nunca o encanto foi tão humilde.
De seus braços nasciam as constelações.
De seu peito escorriam as galáxias.
Os cegos abriram os olhos para o Poema.
Os paralíticos dançaram até o Verbo.
Os assassinos pacificaram-se na Palavra.
Ele veio serenamente
e semeou o pão e o vinho
no deserto dessa página.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Smith


CELEBRAÇÃO DO ENCONTRO

José Inácio Vieira de Melo


Sagração das despedidas, quarto livro de poemas de Alexandre Bonafim, é, em verdade, a celebração do mais humano dos sentimentos, aquele que é causado pela ausência e que por muitas vezes adquire feições de lugar – uma espécie de salão memorial – em cada pessoa que o sente. E todos o sentem: a saudade.
Bonafim consegue insculpir as lembranças mais ternas e longínquas, trazendo-as para o templo da memória. Sua poesia é uma exibição das existências imagináveis. Não o que ele próprio tenha vivido, mas o que qualquer um pode vir a experimentar. O mais fantástico é que essas experiências, mesmo que sejam as mais difíceis, mesmo que sejam as mais angustiantes, são apresentadas com tal leveza, que deixam sempre uma chance de sorriso, um sentimento de que foi preciso andar por aqueles vales, atravessar vazios. Só assim será possível olhar para trás e contemplar o que se viveu, só assim será possível, ao menos, escrever a Biografia do deserto.
Sendo um jovem das montanhas das Minas Gerais, Alexandre, no entanto, tem um imenso fascínio pelo mar e isso é um traço marcante em sua poética, fazendo-se sempre presente com suas ondas, seus veleiros e maresias. Bonafim é um poeta de epifanias. Todo percurso de seus versos nos conduz para o espaço do sublime. Do alto do meu delírio, vejo-o sentado em um pequeno barco emborcado a contemplar a vastidão das plagas marítimas, a ouvir o concerto das ondas e dos ventos. Do seu lado esquerdo, o menino que foi um dia estampa um sorriso na sua lembrança e corre para o mar, a banhar-se nas águas da imensidão. É o instante em que Bonafim alcança A outra margem do tempo.
Sagração das despedidas traz relampejos da beleza. Uma beleza que está presente em devaneios, mas que só se realiza quando cada verso vibra dentro da sua individualidade, conferindo a cada poema cintilação singular. Essa inscrição instaura momentos que provocam arrepios. É a conformação estética da beleza, é a realização de uma experiência íntegra. Bonafim sabe o quanto custa essa alquimia, sabe que para fitar a beleza é necessário “estar de mãos dadas/ com todos os desastres/ com todas as febres”. A sua lira está afinada com a de Rilke que, nas Elegias de Duíno, apregoa: “Pois que é o Belo/ senão o grau do Terrível que ainda suportamos”.
Alexandre é da estirpe dos poetas que elevam a condição humana, tal qual o Jorge de Lima de A túnica inconsútil, tal qual o Gerardo Mello Mourão de Algumas partituras. De seu manancial jorram versos luzidios nos quais podemos contemplar os deuses que habitam nossos eus, pois “nessa caminhada, sem paradeiro, sem itinerário/ as surpresas tatuam em nossos ombros/ a fulguração das galáxias mais altas”.
Quando Alexandre Bonafim tange sua lira, “as constelações batizam o silêncio”. E, do cântico de suas veias, “os que morreram renascem, todos os dias”, e renascem para inaugurar a aurora da vida, para celebrar esse encontro que, em seu íntimo, traz a Sagração das despedidas.

SAGRAÇÃO DAS DESPEDIDAS

Erwitt


SAGRAÇÃO DAS DESPEDIDAS

Constança Marcondes Cesar


O belo livro de Alexandre Bonafim, Sagração das Despedidas, é um conjunto de 45 poemas sobre o amor, a solidão contemplativa e a perda.
Pode ser lido como um único poema longo, que narra o deslumbramento do encontro, o maravilhamento perante a natureza, exposta como o lugar da epifania do outro.
É na celebração lírica do mundo, na contínua referência ao espaço cósmico - mar, constelações, neblina, campo orvalhado, voo dos pássaros, vento, paisagem lunar - que se dá a descoberta da beleza e do amor. Estes aparecem como metáforas da transcendência, do sem nome ou idade, cuja vizinhança desencadeia a plenitude do viver como êxtase e admiração.
A narrativa poética rememora e trata de fixar, através dos versos que se sucedem, o instante fugidio da comunhão com o sagrado, ponto focal entre o tempo e a eternidade. A pessoa amada se torna, na lírica de Alexandre, o polo no qual convergem as memórias da infância - “perfume de hortelã”, “ laranjais adocicadas pela brisa, vinhas” - e a “fuga dos dias”. O poeta anuncia a chegada de alguém, chegada que resgata, no esboroar do acontecer, a vida como perfeição e desvelamento da verdade essencial.
A passagem do tempo é também ruptura do êxtase, derrelição, nostalgia, exílio. Essas situações da existência são acarretadas pela ausência do que fulgurou por instantes na vida mortal.
Na poeira dos dias, todo encontro já contém em si a despedida, a inevitável perda que o passar da existência carrega em si. Vida e morte são polos complementares; por isso, o artista afirma que os ancestrais revivem em nós, encontrando, através dos vivos, um meio de uma vez mais celebrarem o mundo. Por isso os mortos surgem “rejuvenescidos pelo sol”. Eles murmuram no “sopro das constelações” e cantam as marés e as brisas, o movimento do mar. Vida e morte aparecem como passar e perda, mas também como a tessitura que celebra a eternidade possível ao homem.
O encontro com o amor, no tempo assim considerado, é a descoberta da beleza, entendida como o lugar de manifestação da transcendência. É o “belo terrível”, evocado também por Rilke, cuja chegada exige, do homem-poeta, todo o cuidado. A presença do sagrado, do qual a beleza é a máscara por excelência, pode irromper como poder destruidor, fulminante. Daí o artista dizer: “para enfrentar a tua beleza (...) era preciso agarrar-me a tudo o que era frágil (...) Não podia estar só/ante a tua beleza ...” (poema XVII).
Na pessoa amada são sintetizados “todos os encontros, todas as despedidas”, o pulsar da vida que se liberta da corrosão. Além “de toda sombra, de todo silêncio e morte” (poemas XVIII e XIX), dá-se simultaneamente a comunhão e o preparativo da partida, preparativo para a solidão de quem contempla a existência. O poema é, assim, narrativa do encontro e narrativa da despedida. A fragilidade da condição humana, tocada que fora pela beleza e pelo eterno, torna-se absolutamente exposta através da descrição da perda inevitável. Dessa forma, o dilaceramento perante “o esvair das horas”, a “nudez dos dias”, levam o artista a afirmar: “não cabe / no silêncio a minha dor (...), não cabe / no infinito o meu sonhar” (poema XXXII).
Desvendando a condição humana como errância e enigma, Alexandre assinala que “só os milagres nos guiam” (poema XXXVII). Esses milagres surgem-nos, portanto, como a irrupção, no exílio da existência, da beleza e do amor, mensageiros do eterno.
É celebrando o encontro, o amor que alcança a transcendência, que o poeta narra a condição humana. Por isso, no poema que encerra o livro, o artista diz: “No princípio era o encontro / e tudo o que existia” enchia-se de esplendor, de “um perfume de pólen / e mel a desmentir o nada e a morte” (poema XLIV).

Sobre A outra margem do tempo

Erwitt


Alexandre Bonafim é um poeta de natureza auroral. Seus poemas criam uma atmosfera de encantamento e são imbuídos de uma emoção sublime. Em “A outra margem do tempo”, Bonafim empreende uma viagem de retorno as origens ( “Eu só viajo na direção dos nascimentos”), que é o caminho que todos nós – os órfãos da existência – percorremos, sem saber ao certo por onde começar. Mesmo assim, perquirindo caminhos, Alexandre Bonafim é um poeta de epifanias. Sua febre atende o que há de mais urgente no ser humano, a fome: “Esculpes o infinito no itinerário dos pássaros/ a rasgarem o silêncio. Tão intensamente abraças/ a febre, que a vida multiplica, em ti, os pães e as palavras”.




José Inácio Vieria de Melo - poeta brasileiro




02/06/2009 - A OUTRA MARGEM DO TEMPO (Franca, SP: Ribeirão Gráfica e Editora, 2008), ALEXANDRE BONAFIM

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Epifania IV


Corneliu MacCarthy


Toda a fúria do verão concentra-se
na sede dos pássaros,
nas árvores alucinadas pelo sol.
Todo o meu desejo explode
nessa luz viva,
nesse límpido céu aberto.
O dia visita-me como uma enchente,
penetra-me por todos os poros,
consumindo-me em sua vertigem.

Da fogueira viva desse instante,
irrompe a iluminação do anjo.

Ele vem desnudo,
talhado pelos desastres,
esculpido pelas fatalidades.
Ele vem de uma agonia em febre,
de uma fome em desespero.
Ele nasce da ardência desse sol,
dessa combustão em carne viva.
Em todo presságio o anjo convoca-me
para o clamor de um tempestivo incêndio:
luz do seu gozo a iluminar-me
no nascimento das manhãs.

Em furor, em plenitude,
o desejo do verão concentra-se
no meu mais secreto íntimo.

Epifania III


Brad Pasitti
Trôpego saio pelas ruas a buscar a miragem
de outra miragem, a sombra de um corpo
perdido em outra sombra. Na minha vertigem,
uma cegueira incendeia-me no furor das ruas,
na solidão das lâmpadas. Então faço da errância
uma cicatriz a queimar meus anseios,
a cortar a minha fome.

Súbito, ao virar uma esquina
deparo-me com a perfeição de tudo
o que viceja na noite.
Um anjo fita-me, malicioso,
com o peito cravado em sete espinhos.
Um anjo estonteia-me com sua sedução
de facas, com seu silêncio de rosais
em ardente silêncio.
Para que essa cegueira nunca adormeça,
respiro nesse anjo os precipícios,
bebo os desastres,
tatuo em suas asas
a tênue luz do meu esperma.

Epifania II

Stephen B. Whatley


Tudo cicatriza teu nome em mim.
Tudo explode o desejo de sangrar-me em teu silêncio.
Oferendo minha solidão ao mar,
para que os barcos se libertem de todo cais.
Livre de mim, navego pela noite
como quem queima estrelas marinhas
na vertigem do teu esperma.

Epifania I


Cornelius MacCarthy
Abro teus braços e neles eu queimo
a tepidez dos lírios, o incêndio dos rosais.
Neles eu semeio a febre dos veleiros,
os arquipélagos em ardente silêncio.
Junto a ti, desnudo-me na fome,
visto-me com todas as sedes,
abro cada um dos teus poros
para incendiá-los na fúria dos mares.

Depois me cortas inteiro
para que os pássaros voem libertos do meu pulso.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Flávio Viegas Amoreira e o estertor da paixão


Cornélius McCarthy


Quem conhece Flávio Viegas Amoreria sabe o quanto a arte, para esse escritor, é feita de vísceras, entranhas, arrebatamento febril em constante alerta. Flávio inscreve a paixão em sua vida e faz desse ardor o pulso de sua palavra, o âmago de sua existência. Para esse raro escritor, fazem sentido as palavras de Maurice Blanchot: “escrever é entregar-se ao incessante”, é “elevar na vida infinita o que é perecível” (p.67). Com furor, com loucura, o autor de Escorbuto emaranha-se fisicamente, espiritualmente, no seio da palavra, em uma intensa luta amorosa, pela qual a poesia nos surge como salvação dos desacertos da vida humana.
Em iluminação, movido pelo fecundo instinto do amor, Flávio, recentemente, legou-nos uma pequena obra prima. Refiro-me ao “MONÓLOGO A PARTIR DE DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM CLARICE LISPECTOR”. Poema em prosa de largo fôlego, nesse texto o eu lírico dialoga com a grande escritora brasileira, revelando-lhe suas chagas, seus ossos, sua dor imensamente humana. Sentimos nesse texto um fecundo clamor da vida, como se o amor se quisesse febre sem corpo, pulsação sem pulso. O poeta deixa-se possuir pela força dionisíaca do desejo e expressa, com comoção rara, a nossa contingência, nossa humilde miséria. Entretanto, longe de lamúrias, distante do menosprezo à vida, esse texto é, pelo contrário, irrestrita aceitação de tudo o que é precário, de tudo o que é efêmero. Para lembrar as palavras de Fabrizio Luppo, personagem de Carlo Coccioli, Flávio celebra no amor “todos os amores”, todas as tempestades. É em louvor a essa glória que o poeta enfrenta a morte, a finitude, porque é justamente delas que advém a iluminação dos afetos e do desejo. O amor só é imensamente deslumbrante por ser finito e precário. Nietzschiano, Flávio celebra em seu texto a mesma paixão estóica de Zaratustra, sempre viva em face de nossa miséria, sempre em louvor perante o precário, porque advém de um amor irrestrito pela condição humana.
Não podemos nos esquecer que, enquanto outsider, Flávio ecoa em sua lírica a voz de Rimbaud. O parentesco entre os dois poetas dá-se tanto pela expressão quanto pela cosmovisão. Há em Flávio aquele desregramento dos sentidos; aquela transmutação alquímica do eu em um outro, um outro impessoal por ser todos os humanos; aquela força visceral do alquimista, do mago, do “voyant”, traços fundamentais da lírica rimbaudiana.
E por que Clarice Lispector? Porque também a grande escritora tinha essa mesma força bruta, intuitiva, sonambúlica, ao criar seus textos. Como podemos ver nos escritos de Clarice, há no poema de Flávio uma energia sôfrega, ansiosa, feita de atropelos porque nasce do “coração selvagem da vida”. Para Clarice e para Flávio, escrever “é dispor a linguagem sob o fascínio e, por ela, em ela, permanecer em contato com o [...] absoluto” (BLANCHOT, p. 24).
Lemos esse monólogo gratificados, pois, apesar de toda a balburdia de nosso mundo, a poesia ainda se faz necessária, porque ela é o amor usufruído até sua última fagulha, até sua derradeira quimera. E Flávio sabe de cor essa bela lição.



MONÓLOGO A PARTIR DE DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM CLARICE LISPECTORClarice , o desejo é um risco bom; não tenho para onde voltar depois da liberdade : e a liberdade me joga no redemoinho da paixão. Apesar de ter a doença dos sentidos demais aguçados, elevo-me ao Himalaia desse amor que me perfura : estou em estado de insatisfeito: o amor é coisa intraduzível, mas reparto fragmentos de compreensão: o que importa é que eu não saia ileso . O desejo por onde começo a dizer que quero estar nele, ser por ele, contaminar-me de sua pele é uma aprendizagem. Desejo é a palavra mais linda em qualquer idioma: desejo como quem aprende a andar depois do parto de estar no mundo sem escoras: lanço-me ‘a ele o: Desejo. Agora ele tem cara: semblante de pedra. O amor é pedra onde cinzelo / quanto mais miro, mais turvo, embaço, mas não me cego: a pedra é o impossível que alcanço , o mais próximo do impossível, Clarice , é o homem impreciso: o amor por ele é sufocador, mas continua vago. Quero viver de tesão com o mundo: nunca ser indiferente , mesmo com ódios passageiros. Amargura é dor carnívora. A felicidade dói, machuca : é um peixe elétrico, viceja. No meu sofrimento há um pátio ajardinado que rego: retenho esse meu afeto e nele acho uma fresta no sufocamento. Não, não Clarice! A nudez desse homem não me basta: é o entendimento do tempo que tiro dele ‘a fórceps o que me sustenta: forjo o que amo, ele vem depois do que já intuía. Sabia desse amor em algum lugar do instante: agora que encontrei a face do meu delírio, remo na maré do próprio dilúvio que joga-me como arca: esse meu amor exige criar um Universo de coisas inexistentes. Abri a porta a um monstro marinho, colhi açucenas de puro aço, injetei força em minha medula adormecida de silêncio: cerrei minhas mandíbulas e segui farejando o absurdo. O amanhecer é improvável, a morte agora é não mais tê-lo: agarrei-me ao amor, ‘a pedra, ao homem: não me rendo até o último gozo desse santo suplício. O homem onde pouso o espírito é um mar que corre nas veias: sabor de maresia que imanto. Amor , Clarice, é impregnar-se de uma galáxia por dentro. Ele é vasto, já não mais pedra o amor: o desejo é montanha: é vereda, eu pastoreio e rebanho. Há uma geologia íngreme no subterrâneo: na psicologia dos meus dedos : ilumino com a espera as cavernas que ele me causou: escrevo-te Clarice para encontrar o silêncio. Não tenho mais forças para lutar contra o insondável: arrebenta em meu peito acanhado um Atlântico de ondas vertiginosas que me jogam contra toda realidade: a realidade é um sonho que me esqueceu. Estou em estado de praia, de rebentação: o abissal penetra-me agora : tenho coragem de ir ao fundo da coisa que sou eu, mas o eu espalhou-se. O amor reconhece a verdade não no coração , mas na imaginação da felicidade: o coração mentiu muitas vezes e agora não tenho altura para o abismo. Eu vi a Beleza e ela não me cansa de lágrimas: penso conceber o que se passa entre mim e o jogo, mas eis caído num lance inesperado. Eu quero esse amor mais do que o infortúnio de seu desprezo: a questão é o que fazer quando o amor secar de cansado: umedeço . Sei que existe a plenitude dum mergulho, da rosa, do ocaso do Sol no outono: procuro a plenitude Clarice, e lastimo que tudo concorra para desfazer-se: afogo-me, a flor despetala-se saudosa do caule e o crepúsculo me enche de terrores : não é a morte que tememos, é a finitude. Dizer-te torna-me menos fantasma de palavras: o Destino se interpôs em nossa conversa: o que não é memória é hiato , estou desvelando o amor pela fala : sou impelido a dizer, a tentar reproduzir abstrações tão concretas quanto a lâmina que me fere de não poder: amar tornou-se uma prece de fora para dentro: uma liturgia do recôndito, uma celebração visceral do incompleto, não estou conformado com amputação da minha Alma. Perco-me : sou fluvial, cedo ao leito rubro : navego na torrente precipitando-me desabrido: só não transpasso: essa é a causa do meu desespero sem descanso : não transpasso por nosso espírito não penetrar-se em coito: eu o tenho sem ter, Clarice, o corpo não é ainda o amor, a carne é movediça, meus olhos não fixam o delírio: a fatalidade dessa paixão é não poder ser totalmente outro por inteiro e o inteiro descobri de modo terrível: ele não se permite, o inteiro não existe. Aprendi a trepar com outra Alma. Há essa selva entre o real e o simbólico: toda atmosfera submarina aterrada surta e endoido sem loucura : esse o drama que me alimenta e implode: a paixão é composta de razão excessiva, mas há outra face da razão: a posse do impalpável. Ele é a fruta e o paladar da fruta: minhas vísceras contêm também sua polpa: eu consisto em ser por ele sem estar nele contido : por que não vem a palavra que encerre a angústia: onde adquiro a fragrância do Eterno? Evito-me as vezes: escapulo de mim, foragido de algum espelho ancestral, busco onde não encontrar o que me foi perdido sem ser percebido. Perceber é longo demais: quase nada tem um diagnóstico certeiro além da própria dor e do grito. Uma vez achei o perfeito : era invisível aos olhos desatentos.: o perfeito é quando sentimos não mais querer sentir: dormindo eu sinto, mas quero a dor desperto... o perfeito é rápido como um raio bruto ou a saudade em estado de anestesia. A maçã não amadurecida quedava distendendo-se ao meu apetite: um esplendor! o diabo, Clarice , é a espera da colheita. A culpa de todo meu amor é não contentar-me em ser sóbrio de luz: exorbito implorante: emociono de deixar ele entrar: não amo toda parte, sou raro e apartei um alvo: só me chamo Eu quando ele me afaga: sou Eu quando mais não for além de Eu , ele por dentro tatuado. Ele estendeu o braço e lembrei de ti Clarice, quando dizias sobre os amantes: eu disse a ele “sou tu e eu é tu, nós é ele”. Amo romper a gramática como um dique não contendo a represa : amo em azul , amo num azul muito delicado, o azul cobalto. Agora desnudo o que antes inexistia. Despojo-me do que antes não tinha: me totalizo: desnudei-me numa clareira da floresta escura: não fugir da sombra é o maior sinal de luz / a raiz sofre ao rasgar-se semente : da unidade ao fragmento, deitamos sementes de nossos corpos-raízes: sou primordial : tornei-me bromélia: o poeta mora onde se entrega amor . a pedra subjaz: dissolveu-se sedimento liquefeito. Esquecer é não ter vivido: se não tivesse nascido por onde perambulava o que é em mim existido? Clarice, estranho-me: : quem somos quando escrevemos? a máscara ou o rosto distorcido? Tenho a memória da terra , o Mar ejacula / corrosão da pedra / pomo / faca sem gume / fui alcançado por um distanciado farol da torre : eu presumo, não penso: pensar é certeiro, e nada acerta quando buscado: o sentido é outro que o da fonte . Sou amado como seiva esvaída em transe: os ossos desse amante salgam minha pele distendida : castelo de proa / assovios de navios na noite do Tempo: é noite do Tempo: o Espaço é clarabóia / mansarda acolhendo Vida: o que é Vida , Clarice ? senão rastilho de pólvora. Confesso um segredo com meus membros em água viva: Clarice, confesso : meu amor é um navio sem rota cortando caminhos por minha artérias de zinco: cada célula de que sou composto , tem um núcleo exalando sentimento. Esgotarei a existência até a última seiva e haverá gotas que jorrarão meu Eu e o amor que experimentei nos elementos : nosso acalanto terá aparência de ciclos entre a chuva e o trovão. Escrever é poder dizer num relógio d´água tudo que não sei explicar: precipito-me de novo ao penhasco: queria tornar-me Oceano para libertar-me da paixão: rasgo com meus músculos impotentes o cruel muro da prisão: a paixão por ele tem sido minha prisão. Todas paixões são prisões: recomeço escalar o muro : o penhasco : agora quero ser calmo : quero ser contemplação: cansei da paisagem: eu o carrego amando sem mais muros. Conheci o amor numa tarde: agora meu futuro é sempre 2 horas da tarde. Alcancei a esfera: a esfera, o círculo que não domino não sou mais eu, nem ele que ainda amo, o cerne, a essência é a busca da libertação, estou no aprendizado da libertação, Clarice: libertação é espremer o que passa: busquei o total, o total não fica nunca pronto: então choro com o milagre do que passa: dos amassos que dou na existência: transo de espírito para o espírito : o dele é azul também. Dois nunca são um; amor é areia que junto para arquitetar um castelo que desmancha, mas ainda assim volta a ser Oceano-Mar. Somos rochedos vizinhos: o sal semeia esbatendo em nossas ilhas que se lambem de partida. Rochedos, mesmo assim seremos misturados de areia. Não somos mais ilhas: contemos um no outro: somos agora continente.


BIBLIOGRAFIA:

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

Sobre a nudez dos sonhos

Yiannis Tsarouchis


Decifras no espelho
miragens do teu nome,
estilhaços de sombra
a iluminarem o esquecimento.
Observas o próprio rosto
como se em cada vinco
houvesse um ninho vazio,
um pergaminho despido de letras,
de sentido. Fitas no olho vesgo
desse cristal paisagens do teu ser:
desertos de sal, arquipélagos
de silêncio, constelações
da memória. Súbito
um pássaro pousa sobre
os teus abismos, ensinando-te
a caligrafia da ilusão,
a escritura do assombro.
Desse instante irrompe de ti
um vôo iluminado, rutilância
sem margens, sem espaço.
Observas enfim a própria face
como se em cada surpresa houvesse
uma palavra em puro êxtase.

Sobre a nudez dos sonhos

David-Glen Smith


Todas as palavras, como uma rajada
de pássaros a cortarem o acaso,
concentraram-se em minhas mãos.
Por entre meus dedos nasceu enfim
o clamor de toda vida: relâmpago
de vertiginosa aparição a espargir
a luz em meu silêncio. Agora
sou contemporâneo de toda infância.
Conclamo um arco-íris no fim desse poema.
Como dádiva, exaltação da vida,
as palavras todas concentraram-se
em minha mãos. Agora sou apenas
a inteira nudez do sonhos.

Sobre a nudez dos sonhos

Stephen Corry


Meu destino abriu-se para nudez
dessa praia. Ondas em exaltação
levaram-me para a outra margem de mim.
Aqui sou o meio-dia desse silêncio,
selvagem oceano de uma praia inexistente.
Aqui sou a vertigem dessas águas,
louvor das marés na plenitude do mistério.
Minha vida revelou-se para a luz
desse milagre. Agora sou apenas
o cântico dos pássaros marinhos,
veleiros desfeitos na outra margem do silêncio.

NARCISO

Artur Pashkov


Não há caminho suficiente
para o ardor desse assombro.
Errante, tateias em busca de um sentido
para cada instante amputado em teus braços.
Casa segundo é um abismo,
uma queda na plenitude,
fundo sem fundo,
onde fitas teu rosto em sombras.
É sempre além de ti
o lugar do teu coração.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Fabrizio Luppo e seu amante

Cornelius MacCarhti
Li o romance de Carlo Coccioli, Fabrizio Luppo, como quem sorve a mais alta poesia. Aliás, esse é um romance-poema. Pena esse grande escritor italiano ser totalmente desconhecido no Brasil. Clássico do romance homoerótico, esse livro foi vertido para a nossa língua, com esmero, em Portugal.
Ao escrever esse ciclo de poemas, tentei resgatar pela linguagem lírica, o clima gótico e neo-romântico do texto. Como sabemos, o neo-romantismo foi e é uma das grande linhas de força da lírica moderna, como atestaram os nomes de Vicente Aleixandre, Lorca Cernuda, dentre muitos outros. Coccioli, apesar de romancista, pertence a esse grupo.

Fabrizio Luppo e seu amante

a Carlo Coccioli, in memorian

I
Perfis de seda contra a claridade da tarde.
Eles caminham com pés de harpa,
com a leveza do arco-íris.
Súbito, de seus corações evola
silente pássaro, palpitação de galáxias em êxtase.

II
Quem conhece o desvão desse segredo?
Eles fitam-se nas cicatrizes um do outro.
Nos seus pulsos um ninho vazio
conclama a espera de todos os ventos.

III
Na ilha, a nudez do sol
enlouquece o coração das gaivotas.
Um mar de topázio estilhaça
os corpos sedentos de espuma:
beijo a vincar o oceano nas nuvens.
Repentinamente de seus lábios irropem
escunas de âmbar, veleiros
a singrarem crepúsculos e milagres.
Somente os amantes decifram
o fecundo silêncio dos mares.

IV
Que pulso corta as lâminas,
o desespero? Em ti amei o amor!
A beleza de Fabrizio despedaça a tarde,
esparge aromas de acácia,
brisas de amendoeira,
na sombra dessa solidão sem passos...
Qual eternidade é capaz de silenciar
essa flama, essa fome?
Os amantes estão enlaçados
no cerne de toda morte.

V
Pomares de sumarentos frutos
espargem folhas e perfumes
no colo dos amantes.
O céu como um dardo
penetra-lhes o cerne, o ventre,
como se os corpos fossem pomos abertos
a recenderem iluminações e êxtase.
Macieiras em flor entontecem
de delírio ao pressentirem
a fatalidade desse desejo.

VI
Cortam as ruas de Paris,
Fabrizio e seu amante,
dois meninos a decifrarem
o álgido silêncio da morte.
A cidade árida, cavalo
de pedra arrebentando-se
contra as ilusões, é deserto
sem início, sem fim.
Em cada esquina, migalhas
de afagos, abraços em ruína,
ensinam-lhes a exata dimensão
do tempo. Os amantes despedem-se,
para sempre, de suas sombras,
da sede a rasgar-lhes a pele.
Só lhes resta o silêncio:
anunciação dos desastres.

VII
No bosque oloroso de chuva
e pinho, repousa sobre o esquife de marfim,
o corpo glabro, alvo, de contornos
suaves como o adejar dos pássaros.
Fabrízio do fundo de seu sono
acorda um poema na pétala dos lírios,
desperta lágrimas de harpa
no incandescência dos círios.
Jamais a beleza teve lábios mais singelos.